• François

O declínio da positividade

Sou do tempo em que positivo era sinal do benfazejo. "Como vai"? E a resposta boa era: "Tudo positivo". E tome o dedo polegar pra cima, dizendo Cézar ao gladiador para não matar. Até no jargão policial era assim: "Operante e positivo".


Acabou esse tempo. Desde o advento da Aids, a positividade entrou no beco penumbroso do medo. Positivou? Risco sério. Ou, pelo menos, a vida não será a mesma.


Agora chega a Covid. Tanto faz o gênero do artigo. Hermafrodita, assexuadamente assustadora. Pois bem, meu organismo virou uma pensão de quinta categoria pra hospedar esse hóspede imundo e intrometido.


Conto. Embicou na pensão logo no início, quando apareceu na rua onde se aboletava a hospedaria do meu corpo. Contraí o bicho quando nada se sabia o que fazer pra expulsá-lo. Era ele no interior da pensão e o mundo vindo abaixo fora da rua, com toda carga masoquista de terror na mídia. Terror justificável. E aí a negatividade ganhou contornos de salvação.


Depois, apareceram os primeiros cadeados pra proteger a entrada da pensão. Fui atrás. Eram as vacinas. Tomei a primeira, Coronavac. A pensão recebia novamente sinais do hóspede, pra sentir sua aproximação e não deixá-lo entrar. Dias depois, a segunda dose, novo alerta na recepção da pensão. Parei aí? Não.


Fui buscar um cadeado novo, a terceira dose Pfizer. Meses depois, uma nova tranca, Astrazêneca. Tudo devidamente trancado, saí pra passear. Quando voltei, descobri ser hospedeiro novamente desse bicho imundo. Por conta das trancas, ele entrou com dificuldade e sem muita capacidade de estrago. Estava sendo reconhecido pelos corredores da pensão, que não lhe deu alimento nem trégua. Vai embora como entrou, sem levar qualquer brinde de lembrança.


Mas o certo é que já convivi com essa praga seis vezes. Duas dele próprio e quatro de pedaços dele, fatiados como trancas contra ele mesmo. Mas, como gostaria de ouvir daqui pra frente: "Diga aí o resultado"!? E a reposta: "Negativo". Pois, pois, polegar pra cima agora é "negativo".



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